Uma corrente oceânica vital permanece estável, por enquanto
O sistema de circulação oceânica pode não estar tão comprometido quanto se pensava anteriormente.
Uma importante “artéria” oceânica conhecida como Corrente da Flórida, considerada um indicativo da capacidade do oceano de regular o clima da Terra, aparentemente vinha enfraquecendo há décadas. No entanto, esse declínio recente pode não ser tão grave quanto se suspeitava. A corrente, na verdade, permaneceu estável nas últimas décadas, relatam pesquisadores em 5 de setembro na revista Nature Communications.
Um enfraquecimento anteriormente relatado havia alimentado especulações de que um grande sistema de correntes oceânicas — responsável por regular o clima global — poderia ter diminuído devido às mudanças climáticas causadas pela atividade humana. Alguns cientistas sugeriram que esse sistema maior, conhecido como Circulação Meridional do Atlântico, ou AMOC (na sigla em inglês), poderia colapsar ainda neste século, provocando um resfriamento drástico no Hemisfério Norte e elevando o nível do mar em até 70 centímetros em partes da costa atlântica.
“A boa notícia é que a AMOC está desacelerando menos do que pensávamos, e isso significa que ainda há tempo para evitar uma desaceleração mais séria”, afirma a oceanógrafa Hali Kilbourne, do Centro de Ciência Ambiental da Universidade de Maryland, em Solomons, que não participou do novo estudo.
Mas, como os registros reavaliados abrangem apenas algumas décadas, ela ressalta que “ainda permanece a questão em aberto se a AMOC desacelerou desde os tempos pré-industriais”, por volta de meados do século XIX.
A AMOC funciona como uma esteira transportadora em dois níveis, circulando calor, sal e nutrientes pelo Oceano Atlântico. O nível superior transporta águas quentes próximas à superfície dos trópicos até o Atlântico Norte. Lá, a água esfria e afunda para as profundezas. Em seguida, desloca-se para o sul pelo nível inferior da circulação, onde se aquece, sobe novamente e reinicia o ciclo.
No Atlântico Norte subtropical, a maior parte da água transportada pelo nível superior da AMOC vem da Corrente da Flórida, que leva água do Golfo do México para a Corrente do Golfo. Desde 1982, um cabo submarino de telecomunicações que atravessa parte do Estreito da Flórida é utilizado para monitorar essa corrente poderosa, fornecendo o mais longo registro observacional de qualquer componente da AMOC.
A água do mar contém átomos carregados chamados íons, que fluem através do cabo e geram uma voltagem mensurável. Ao calibrar essas medições de voltagem com observações diretas feitas em expedições periódicas, os cientistas conseguem calcular quanto volume de água a corrente transporta em um determinado dia.
Mas esse processo não é perfeito, afirma o oceanógrafo Denis Volkov, da Universidade de Miami. Ao longo das décadas, diferentes gerações de cientistas administraram o monitoramento, resultando em mudanças no processamento dos dados. A equipe de Volkov identificou que, desde o ano 2000, houve falhas no cálculo da intensidade e da orientação do campo magnético da Terra.
Após corrigir essas variações geomagnéticas, os dados indicam que, desde 2000, a vazão da Corrente da Flórida caiu cerca de 100 mil metros cúbicos por segundo por década. Isso representa aproximadamente um quarto do declínio anteriormente relatado e é praticamente insignificante, considerando que a média atual da corrente é de cerca de 32 milhões de metros cúbicos por segundo.
A correção também reduziu em cerca de 40% as estimativas do enfraquecimento recente da AMOC. Desde 2000, a vazão da AMOC diminuiu cerca de 800 mil metros cúbicos por segundo por década, enquanto transporta, em média, aproximadamente 17 milhões de metros cúbicos por segundo. Embora isso ainda represente uma queda, ela é apenas marginalmente significativa, diz Volkov, acrescentando que ainda não é possível determinar se essa redução é resultado das mudanças climáticas ou de uma flutuação natural.
O principal ponto é que o comportamento recente da Corrente da Flórida não indica que a AMOC esteja desacelerando devido às mudanças climáticas — ou então o registro observacional ainda é curto demais para detectar tal declínio.
“Este é um excelente exemplo de como, em qualquer empreendimento científico, precisamos constantemente revisar nossos dados, nossas suposições e até nossos entendimentos estabelecidos à medida que novas informações surgem”, afirma Kilbourne.
Grande parte dos estudos que indicam um declínio da AMOC desde o período pré-industrial utiliza dados paleoclimáticos de menor resolução, como o tamanho de grãos em sedimentos marinhos profundos e composições de corais, que abrangem milhares de anos. Os dados revisados atuais ainda são curtos demais para alterar nossa compreensão sobre a evolução de longo prazo da AMOC, ressalta Kilbourne.
É importante continuar realizando essas observações, pois elas poderão, no futuro, ajudar a demonstrar como as mudanças climáticas estão afetando a AMOC, afirma a oceanógrafa Sophia Hines, da Instituição Oceanográfica Woods Hole, em Falmouth, Massachusetts. “Tudo é importante, são apenas peças diferentes do quebra-cabeça.”
Fonte da imagem: www.sciencenews.org
