Uma biogeoquímica acompanha os movimentos da poluição tóxica por mercúrio
Um dos maiores hotspots de biodiversidade do mundo é Madre de Dios, no Peru, uma região da Amazônia localizada na base da Cordilheira dos Andes. Quando a biogeoquímica Jacqueline Gerson viajou para lá pela primeira vez, em 2017, ela estava em um barco descendo o rio pela floresta. À medida que passava pelas margens, percebeu uma mudança na paisagem.
No início, “era uma floresta primária linda, muitas aves, muitos animais diferentes”, diz Gerson, que na época era doutoranda na Universidade Duke. “Mas, conforme continuei descendo o rio… você começa a ver essas pedras primeiro”, conta. “Depois, você vê montes e mais montes, e então começa a perceber o desmatamento.”
Ela presenciou sinais de mineração de ouro artesanal e de pequena escala. Diferentemente das grandes operações industriais, com frotas de caminhões basculantes e escavadeiras, os trabalhadores ali utilizam ferramentas simples ou as próprias mãos para extrair o minério. Essas atividades informais são tão comuns em Madre de Dios que sustentam pelo menos metade da economia da região.
Mas esse ganho tem um custo. Garimpeiros de pequena escala misturam mercúrio aos sedimentos das margens dos rios que contêm partículas de ouro. Isso forma um amálgama de ouro e mercúrio, que pode ser facilmente separado dos resíduos e depois aquecido para isolar o ouro. No entanto, essa queima também libera vapores de mercúrio no ar.
Para Gerson, atualmente na Universidade Cornell, esclarecer como poluentes tóxicos circulam no ambiente é uma vocação. Ela estuda como atividades humanas contribuem para esses poluentes e alteram seus caminhos.
Globalmente, os seres humanos liberam mais de 2.000 toneladas métricas de mercúrio na atmosfera a cada ano, provenientes de usinas a carvão, incineradores de resíduos, produção de cimento, atividades de mineração e outras fontes. A mineração artesanal e de pequena escala de ouro é responsável por mais de 35% dessas emissões, tornando-se a principal fonte antropogênica.
No ambiente, bactérias transformam o elemento em metilmercúrio, uma forma ainda mais tóxica, que se bioacumula com maior facilidade em animais e humanos. A exposição a grandes quantidades de mercúrio pode causar danos graves ao sistema nervoso central, ao trato digestivo e aos rins, levando a convulsões, cegueira, distúrbios do sono, perda de memória, dores de cabeça, fraqueza muscular ou até morte.
Grande parte do trabalho de Gerson concentra-se no mercúrio, mas ela também já estudou os movimentos de outros poluentes perigosos, como o selênio liberado pela mineração de carvão e o enxofre proveniente da agricultura. Na maioria dos casos, ela já tem uma boa ideia de onde as substâncias se originam quando inicia sua investigação. O restante da história — para onde vão e onde acabam — é o que ela busca descobrir.
Antes que possamos gerenciar melhor e reduzir os riscos que esses poluentes representam para os seres humanos, afirma ela, “primeiro precisamos entender seu destino”.
Um hotspot na Amazônia
Mesmo antes de sua primeira viagem a Madre de Dios, Gerson já sabia que sinais de exposição ao mercúrio haviam sido relatados em comunidades rio acima das áreas de mineração. Talvez as pessoas estivessem consumindo peixes contaminados que nadaram para montante, mas ela suspeitava que pudesse haver outras rotas de exposição. Assim, ela e seus colegas retornaram à região no verão de 2018 e no inverno seguinte para coletar amostras.
Surpreendentemente, os níveis de mercúrio no ar estavam correlacionados com a proximidade das minas. Mas a água que escorre pelas folhas do dossel da floresta, conhecida como escoamento, revelou um quadro mais complexo. Quanto mais denso o dossel, maior a concentração de mercúrio no fluxo, com os níveis mais altos registrados em uma área de conservação chamada Concessão Biológica Los Amigos, relataram Gerson e colegas em 2022 na revista Nature Communications. A deposição de mercúrio em Los Amigos está “entre as mais altas registradas em qualquer lugar do planeta”, diz Gerson. “Foi realmente surpreendente encontrar isso em uma área que consideramos uma das mais remotas do mundo.”
O que diferenciava Los Amigos era sua floresta primária preservada. As grandes folhas do dossel maduro atuam como coletores de mercúrio, oferecendo ampla superfície para que o metal presente no ar se acumule e posteriormente seja lavado para o solo pela chuva, explica Gerson. “Se você tem uma comunidade de mineração cercada por floresta primária, verá cargas muito altas de mercúrio ali.”
E não eram apenas as folhas. A mineração também contaminou a vida selvagem. Os níveis de mercúrio nas penas de três espécies de aves canoras com dietas distintas eram, em média, duas a três vezes mais altos em Los Amigos do que em outra floresta primária distante das minas. O escoamento e a queda das folhas levam o mercúrio ao solo, onde o poluente é convertido em metilmercúrio por bactérias e incorporado por plantas e animais.
“É importante divulgar essas informações”, afirma a biogeoquímica Mae Gustin, da Universidade de Nevada, em Reno, que não participou do estudo. O impacto é mais amplo do que as pessoas imaginam, diz ela. “Todo o ecossistema está sendo contaminado.”
Uma faísca no Senegal
O interesse de Gerson pelo mercúrio não começou na Amazônia, mas sim em uma viagem ao centro do Senegal. Após concluir sua graduação na Universidade Colgate, em Hamilton, Nova York, ela foi para o Senegal como voluntária do Corpo da Paz.
Lá, conheceu outra voluntária que havia vivido na região de Kédougou, no sudeste do país. “Lembro-me de ela comentar que precisou mudar de comunidade porque o Corpo da Paz estava preocupado com sua exposição pessoal ao mercúrio das operações de mineração”, conta Gerson. “Isso realmente despertou meu interesse.”
De volta a Nova York, ela iniciou um mestrado na Universidade de Syracuse em 2014. Seu orientador, Charles Driscoll, lhe deu grande liberdade para escolher o tema da dissertação. Nos anos seguintes, publicou alguns de seus primeiros trabalhos sobre como os padrões de mercúrio e metilmercúrio evoluíram ao longo de uma década em uma área remota das Montanhas Adirondack, dando início a uma carreira dedicada ao estudo do “metal líquido”.
Posteriormente, sua pesquisa a levou novamente ao Senegal. Em um estudo publicado em 2023 na revista Pure and Applied Chemistry, ela e colegas trabalharam com membros da comunidade local — mais de 80% dos quais se identificavam como mineradores — para conscientizar sobre os perigos do mercúrio. A equipe também distribuiu dispositivos chamados retortas, que reduzem a exposição aos vapores tóxicos. Pesquisas indicaram resultados positivos: a proporção de participantes que acreditavam que o mercúrio era perigoso aumentou de 83% para 94%, e o uso das retortas pelo menos ocasionalmente subiu de 3% para 64%.
Nos Estados Unidos, os movimentos dos poluentes não são o único foco de Gerson. Ela também se dedica a orientar novos estudantes na ciência. Como doutoranda, cofundou o GALS, um programa gratuito de verão que organiza acampamentos e trilhas com pernoite para meninas do ensino médio e estudantes de gênero não conforme. Além disso, escreveu um artigo publicado em 2023 no Bulletin of the Ecological Society of America intitulado “Desmistificando o processo de candidatura à pós-graduação”.
“Há muitos aspectos ocultos no ensino médio e nas ciências em geral que não são facilmente acessíveis para quem não conhece o processo”, afirma Gerson. “Sou realmente apaixonada por tornar as áreas de STEM muito mais inclusivas e ajudar as pessoas a encontrarem seu caminho também.”
Fonte da imagem: www.sciencenews.org
