A origem cataclísmica da maioria dos meteoritos da Terra foi descoberta
A maioria dos meteoritos encontrados na Terra pode ser rastreada até apenas algumas colisões ocorridas no cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter, relatam dois novos estudos — incluindo um evento particularmente catastrófico ocorrido há cerca de 470 milhões de anos.
O lado positivo dessa descoberta, publicada em 16 de outubro na revista Nature, é que ela fornece aos pesquisadores um contexto essencial: ao conhecer o “endereço de origem” dos meteoritos, os cientistas conseguem compreender melhor como e onde os blocos formadores dos planetas se reuniram para criar o Sistema Solar que observamos hoje. O lado negativo é que isso pode indicar que temos uma coleção extremamente enviesada de meteoritos, capaz de contar apenas uma pequena parte da história.
Os meteoritos registram a história turbulenta dos primeiros anos de formação do Sistema Solar, mas a origem dessas antigas rochas espaciais muitas vezes é desconhecida. “É absolutamente como encontrar um pote de ouro no fim do arco-íris para um meteoritista saber de onde veio o asteroide de origem”, afirma Sara Russell, cientista planetária do Museu de História Natural de Londres, que não participou dos estudos. Sem essa informação, um meteorito é como uma peça de quebra-cabeça sem a imagem completa para orientar.
A maioria dos meteoritos que caem na Terra pertence a um tipo de rocha chamado condrito ordinário. Duas classes desses condritos, conhecidas como H e L, representam cerca de 70% de todas as quedas de meteoritos.
Os cientistas suspeitavam que os condritos L tivessem origem em um único asteroide progenitor. Muitos apresentam características mineralógicas que indicam terem sido fortemente impactados, aquecidos e desgaseificados antes de resfriarem gradualmente — sinal de que foram ejetados de um grande asteroide, com pelo menos 100 quilômetros de extensão, após uma colisão supersônica.
Ao utilizar elementos radioativos para determinar a idade dos meteoritos, os pesquisadores descobriram que eles surgiram de um impacto ocorrido há cerca de 470 milhões de anos. Para identificar o local dessa colisão no cinturão de asteroides, a equipe utilizou o Telescópio Infravermelho da NASA, no Havaí, analisando diversos asteroides rochosos e comparando suas assinaturas minerais com as dos condritos L.
A melhor correspondência foi encontrada em um grupo chamado família Massalia. A distribuição dispersa e as órbitas atuais desses asteroides puderam ser rastreadas para trás no tempo, indicando que todos se formaram há cerca de 500 milhões de anos, após se fragmentarem de um asteroide maior e mais antigo. Essa coincidência temporal sugere que o impacto que gerou os condritos L também criou a família Massalia. Um dos asteroides dessa família mede cerca de 140 quilômetros de extensão — compatível com o tamanho estimado do corpo progenitor dos condritos L.
Outras linhas independentes de evidência também apontam para a família Massalia, incluindo o fato de que asteroides próximos à Terra com assinaturas semelhantes às dos condritos L possuem órbitas que remetem a essa família, assim como as trajetórias de meteoros do tipo L que cruzam o céu antes de deixar meteoritos na superfície.
“Tudo aponta para a mesma conclusão. Não há dúvida”, afirma Michaël Marsset, astrônomo do Observatório Europeu do Sul, em Santiago, Chile, e autor de ambos os estudos.
Esse antigo impacto também preparou o cenário para um bombardeio mais recente, enviando fragmentos do tipo L colidirem novamente com o grande remanescente do asteroide. Outro impacto, ocorrido há no máximo 40 milhões de anos, lançou esses destroços em direção à Terra.
E quanto aos condritos H? Muitos têm entre 5 e 8 milhões de anos, indicando origem em outro evento de impacto — ou talvez dois. Ao reconstruir órbitas passadas da família Koronis2, mineralogicamente compatível, os pesquisadores descobriram que muitos desses asteroides estavam unidos como um único corpo há 7,6 milhões de anos.
Pesquisas anteriores já haviam aplicado a mesma técnica à família Karin e constatado que muitos de seus membros também formavam um único asteroide há 5,8 milhões de anos, pouco antes de uma nova colisão. Como essas duas famílias abrangem o intervalo de idades dos condritos H, a equipe concluiu que elas são a fonte dessa classe de meteoritos.
O fato de a coleção de meteoritos da Terra poder estar tão concentrada em apenas alguns asteroides é preocupante, diz Russell. O cinturão de asteroides abriga uma variedade de rochas, objetos e até planetas anões, cada um revelando algo único sobre o Sistema Solar. “Talvez estejamos vendo apenas uma pequena fração deles” por meio dos meteoritos, afirma.
Há uma solução — embora mais cara do que simplesmente procurar meteoritos na Terra. “Precisamos de missões espaciais que vão até lá”, diz ela, para explorar diretamente esses antigos arquivos rochosos.
Fonte da imagem: www.sciencenews.org
