Um voo transatlântico pode transformar a poeira do Saara em um importante nutriente oceânico
À medida que a poeira do Saara percorre milhares de quilômetros sobre o Oceano Atlântico, ela se torna progressivamente mais nutritiva para microrganismos marinhos, sugere um novo estudo.
Reações químicas na atmosfera desgastam minerais ricos em ferro presentes na poeira, tornando-os mais solúveis em água e criando uma fonte essencial de nutrientes para mares pobres em ferro, relatam pesquisadores em 20 de setembro na revista Frontiers in Marine Science.
Nuvens de poeira que se depositam no Atlântico podem gerar florações de fitoplâncton que sustentam ecossistemas marinhos, afirma Timothy Lyons, biogeoquímico da Universidade da Califórnia, em Riverside. “O ferro é incrivelmente importante para a vida”, diz ele. O fitoplâncton precisa desse elemento para converter dióxido de carbono em açúcares durante a fotossíntese.
Ao estudar com mais profundidade o transporte da poeira e as reações químicas que ocorrem na atmosfera, os cientistas podem compreender melhor por que determinadas regiões do oceano são hotspots biológicos para fitoplâncton e peixes.
Mais de 240 milhões de toneladas métricas de poeira saariana atravessam o Atlântico todos os anos. Em locais como Bermudas, Bahamas e outras ilhas, o solo adquire uma tonalidade avermelhada. Mas a maior parte dessa poeira se deposita no oceano, fornecendo uma importante fonte de ferro em áreas muito distantes da terra firme para recebê-lo por meio de rios.
Lyons e o geólogo marinho Jeremy Owens, então também na Universidade da Califórnia em Riverside, buscaram responder a outra questão: os tipos de poeira que se depositam no Atlântico mudaram ao longo dos últimos 120 mil anos? Para isso, analisaram os minerais liberados pela poeira em quatro testemunhos retirados do fundo marinho — dois no Atlântico oriental, próximo à África, e dois mais a oeste, perto da América do Norte.
O que encontraram levou a uma nova linha de investigação.
Na poeira e nos solos ao redor do mundo, cerca de 40% do ferro geralmente está presente em minerais “reativos”, como pirita ou carbonatos. Esse tipo de ferro pode ser dissolvido por ácidos fracos e utilizado por organismos vivos. Nas amostras coletadas no fundo do Atlântico, apenas cerca de 9% do ferro presente na poeira coletada mais a oeste consistia em minerais reativos, em comparação com aproximadamente 18% nas amostras mais próximas da África. Para Lyons, isso foi “a grande surpresa”.
Ele e Owens, atualmente na Universidade Estadual da Flórida, em Tallahassee, concluíram que, durante os vários dias de travessia da poeira pelo Atlântico, uma parcela crescente de seu ferro reativo foi alterada — atacada por ácidos e pela radiação ultravioleta, que fragmentaram os minerais.
“Existem transformações fotoquímicas que tendem a tornar o ferro mais solúvel” na água, explica Lyons. Quando esse ferro modificado finalmente se deposita no oceano, ele se dissolve — e é consumido — pelo fitoplâncton. O ferro reativo que chega ao fundo do mar é apenas aquele que não foi alterado durante o transporte atmosférico e que não foi ingerido posteriormente. Os resultados sugerem que quanto mais longe a poeira do deserto viaja, menos ferro reativo permanece.
Ao estimular florações de fitoplâncton, o ferro liberado pela poeira também pode alimentar pequenos peixes e outros organismos que se alimentam de plâncton, além de predadores que consomem esses animais. Um estudo recente sugeriu que o atum do Atlântico, um peixe de grande importância comercial, é atraído por áreas onde a poeira saariana se depositou.
Os novos resultados são plausíveis porque estudos anteriores já demonstraram que minerais de ferro reagem na atmosfera, afirma Natalie Mahowald, cientista atmosférica da Universidade Cornell que estuda poeira. A conclusão “corresponde ao que eu imaginava que estivesse acontecendo”, diz ela.
No entanto, Mahowald observa que a poeira do Saara não é a única possível fonte desse ferro: as amostras foram coletadas em regiões suficientemente ao norte do Atlântico, o que significa que parte do ferro poderia ter vindo de fumaça de incêndios na América do Norte ao longo dos últimos 120 mil anos.
Determinar a origem da poeira enterrada no fundo do mar pode ser desafiador. Ainda assim, Owens e Lyons tentaram identificar a “assinatura” da poeira medindo as proporções entre ferro e alumínio e entre isótopos leves e pesados de ferro nas amostras. Ambas as medições foram amplamente consistentes com o tipo de poeira proveniente do Saara. No futuro, pode ser possível analisar sedimentos de mais regiões do Atlântico, oferecendo um quadro mais claro de como a poeira atravessou o oceano e se transformou quimicamente ao longo do tempo.
Fonte da imagem: www.sciencenews.org
