A missão Europa Clipper partiu para desvendar um mistério extraterrestre

A espaçonave Europa Clipper, da NASA, está a caminho para ajudar a resolver um mistério que intriga cientistas há um quarto de século: poderia existir alguma forma de vida no oceano escondido sob a camada de gelo da lua Europa, de Júpiter?

“Esta é uma missão com a qual sonhamos há 25 anos, desde que eu estava na pós-graduação”, afirma a geóloga planetária Cynthia Phillips, do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, em Pasadena, Califórnia. “É uma missão de geração.”

Um lançamento previsto para 10 de outubro, a partir do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, foi cancelado devido ao furacão Milton. Mas, em 14 de outubro, a espaçonave decolou pouco depois do meio-dia (horário do leste dos EUA), iniciando sua jornada de cinco anos e meio até Júpiter.

Ao chegar, em abril de 2030, a Clipper entrará em órbita ao redor do planeta gigante e realizará múltiplas passagens próximas por Europa para fotografar seu terreno congelado, medir a química da superfície e deduzir a estrutura interna da lua.

“Acreditamos que mundos oceânicos possam ser um tipo comum de planeta fora do nosso Sistema Solar”, declarou Gina DiBraccio, chefe da ciência planetária da NASA, em coletiva de imprensa em 17 de setembro. “A Clipper será a primeira missão aprofundada que nos permitirá caracterizar a habitabilidade do que pode ser o tipo mais comum de mundo habitável no universo.”

Os cientistas planetários tornaram-se cada vez mais confiantes de que Europa abriga um oceano subterrâneo desde que a espaçonave Galileo, da NASA, visitou Júpiter na década de 1990.

“Durante a missão Galileo, foi como uma história de detetive”, diz Phillips. Os dados revelaram poucos impactos de crateras, sugerindo que a superfície está sempre se movendo e mudando. Linhas, fissuras e depressões indicavam atividade vinda do interior. Regiões conhecidas como “terreno caótico” pareciam blocos de gelo inclinados em um mar agitado.

E, finalmente, a medição de um campo magnético interno induzido pelo campo magnético de Júpiter foi o “golpe final”, afirma Phillips. O único material geologicamente plausível capaz de sustentar esse campo seria água salgada.

Na Terra, água significa vida. Mas as descobertas em Europa não foram suficientes para declará-la habitável. Muitas perguntas permaneceram: qual é a profundidade do oceano? Qual a espessura da camada de gelo? E, mais importante, como esses dois ambientes interagem? Materiais da superfície poderiam afundar nas profundezas salgadas e fornecer nutrientes para possíveis microrganismos?

A Europa Clipper, nomeada em homenagem aos velozes navios clipper do século XIX, está pronta para continuar de onde a Galileo parou. Sua missão é investigar a habitabilidade de Europa buscando três ingredientes principais: água, energia e compostos orgânicos.

A espaçonave não entrará em órbita direta ao redor de Europa. A lua está imersa no intenso ambiente de radiação de Júpiter, onde partículas carregadas de alta energia podem danificar os instrumentos. Em vez disso, a Clipper realizará pelo menos 49 sobrevoos próximos, apontando seus nove instrumentos para a lua a cada passagem e, depois, afastando-se para regiões menos hostis para processar e transmitir os dados à Terra.

Uma das primeiras tarefas da Clipper ao chegar será confirmar — ou possivelmente refutar — a existência do oceano subterrâneo. A forma como Europa exercerá sua gravidade sobre a espaçonave revelará detalhes de sua estrutura interna, explicou Bonnie Buratti, cientista adjunta do projeto no JPL.

Em seguida virão as imagens. A antena da Galileo não funcionou como esperado, o que limitou a nitidez de suas fotos, e seus instrumentos não foram projetados especificamente para estudar Europa. A Clipper fornecerá imagens e espectros muito mais detalhados, revelando pistas sobre a química da superfície — e talvez do interior — que a Galileo não conseguiu captar.

Por fim, a missão investigará aspectos como a espessura da crosta de gelo, a profundidade do oceano e a interação entre essas camadas.

Há limitações. A Clipper não conseguirá alcançar o fundo do oceano, onde a água encontra a rocha — ambiente que pode ser o mais propício para a existência de ecossistemas microbianos, semelhante às fontes hidrotermais do fundo do mar na Terra. Ela também não poderá detectar vida diretamente.

No entanto, há fortes indícios de que água do interior pode ocasionalmente alcançar a superfície, seja em forma de plumas de vapor, fluxos lentos ou lagos sob o gelo, possivelmente trazendo materiais das profundezas. A Clipper buscará compostos químicos na superfície para inferir o que pode estar acontecendo nas camadas ocultas.

“O grande prêmio seria encontrar algo como um aminoácido na superfície”, diz Buratti. “Mas somente ao identificar diversos compostos orgânicos poderemos ter evidências sólidas de que existem as condições necessárias para a vida.”

O que a Clipper não fará é procurar vida diretamente. “Não temos um tricorder para apontar para Europa e dizer: ‘É vida, Jim!’, como em Jornada nas Estrelas”, comenta Phillips. “Serão múltiplas linhas de evidência indireta.”

“Para realmente detectar vida”, acrescenta ela, “será preciso tocar essa superfície.” Ou talvez perfurá-la.

Depois de tantos anos esperando para ver essa missão acontecer, Phillips não espera testemunhar uma futura missão capaz de explorar diretamente o oceano de Europa. Mas espera que os cientistas não precisem esperar mais 25 anos.

“Espero que esse impulso continue crescendo”, afirma. “Aceito que provavelmente não verei um submarino em Europa, mas espero que meus filhos ou talvez meus netos vejam.”

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Fonte da imagem: www.sciencenews.org

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