A poeira reativa do Grande Lago Salgado pode ter consequências para a saúde
Sabe-se que a poluição por poeira contribui para asma e doenças cardíacas e pulmonares. Mas a poeira que sopra do Grande Lago Salgado, em Utah, pode causar um impacto adicional indesejado.
Metais presentes na poeira e nos sedimentos ao redor do Grande Lago Salgado são mais reativos do que a poeira de leitos de lagos próximos, relatam pesquisadores na edição de novembro da revista Atmospheric Environment. Quando inaladas, essas partículas têm potencial para provocar inflamação, embora os impactos reais sobre a população da região ainda exijam mais estudos.
O Grande Lago Salgado vem encolhendo de forma constante, à medida que a seca, as mudanças climáticas e o consumo de água reduzem seus níveis mais rapidamente do que podem ser repostos, deixando mais de 1.900 quilômetros quadrados do leito do lago expostos. À medida que seca, o lago deixa para trás poeira carregada de metais, minerais e sedimentos que foram transportados por rios e cursos d’água.
Para compreender melhor a composição dessa poeira, a engenheira química Kerry Kelly e seus colegas transformaram em aerossol amostras coletadas ao redor do lago. Em seguida, filtraram partículas maiores que 10 micrômetros, mantendo apenas as pequenas o suficiente para serem inaladas.
A análise das partículas respiráveis revelou a presença de diversos metais — incluindo manganês, cobre, ferro e chumbo — em concentrações mais altas do que as encontradas em poeiras de outras áreas secas próximas. Lítio e arsênio também foram detectados em níveis acima dos limites regionais de controle estabelecidos pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), um parâmetro utilizado para avaliações adicionais de risco.
A equipe também constatou que o potencial oxidativo da poeira do Grande Lago Salgado — indicador da probabilidade de gerar espécies reativas de oxigênio — é, em geral, maior do que o da poeira de outros lagos próximos. As espécies reativas de oxigênio são moléculas instáveis que contêm oxigênio e podem interagir — e às vezes danificar — moléculas nas células vivas.
“Nosso corpo possui diversos antioxidantes”, explica Kelly, da Universidade de Utah, em Salt Lake City. Essas substâncias permitem que respiremos e lidemos com as espécies reativas de oxigênio — até certo ponto. “No entanto, se muitas dessas partículas ou espécies reativas entrarem nos pulmões, pode ocorrer um desequilíbrio. Isso pode levar à inflamação, e a inflamação está associada a vários efeitos negativos à saúde.”
Mas especialistas alertam para não tirar conclusões precipitadas. “Acho importante analisar os componentes ambientais e seu potencial de causar determinados efeitos”, afirma David Lo, cientista biomédico da Universidade da Califórnia, em Riverside. “Mas também é preciso perguntar: existe evidência de que as pessoas estejam realmente sendo prejudicadas?” Segundo ele, relacionar a exposição à poeira altamente oxidativa a resultados específicos de saúde pública exigiria mais dados sobre o nível de exposição e estudos que conectem o potencial oxidativo a problemas de saúde concretos.
Kelly concorda. “Não estou dizendo que ‘o céu está caindo e todos vamos morrer’.” Em vez disso, afirma que o estudo “mostra que a poeira do Lago Salgado é potencialmente uma preocupação significativa para a saúde, então precisamos avançar nas pesquisas”. Utah dispõe de recursos para equipamentos capazes de medir a taxa com que a poeira do lago é levada pelo vento para cidades próximas, diz ela, mas esses instrumentos ainda não foram instalados.
“Também precisamos levar mais água para o Grande Lago Salgado”, conclui Kelly, “porque essa é realmente a solução.”
Fonte da imagem: www.sciencenews.org
